Casa Gall
A casa Gall ficava na confluência das ruas José Gall e José Siqueira. Desta linda propriedade ainda resta o renque de palmeiras reais que decora o canteiro central da parte norte da Rua José Siqueira. Possuía estilo adaptado ‘germânico’, com dois pavimentos em forma de L, grandes varandas laterais e paredes com tijolos à vista. A casa foi construída bem acima do nível do terreno, mantendo um sótão com entradas largas, como forma de prevenção de enchentes, muito comuns em toda a região da Ressacada. Seu proprietário era o marítimo austríaco José Gall, que veio ao Brasil junto com a tripulação que trouxe o navio vapor Max, para a companhia Hoepke, por volta de 1896. Contudo, José Gall não voltou para a Europa, preferindo fixar residência no Vale do Itajaí. Logo se empregou como maquinista do Vapor Blumenau, trabalhando por muitos anos na Hidrovia do Rio Itajaí fazendo o trajeto Itajaí – Blumenau. Casou com Augusta Müller em 1898, morando em Blumenau. Por volta de 1908 comprou de José Pereira Liberato a ‘Fazenda Engenho’ – propriedade que englobava praticamente toda a localidade da Ressacada – construindo, em 1910, sua belíssima casa. O destaque era o renque de 24 palmeiras reais, sendo que cinco delas não sobreviveram à grande enchente de 1911. Por volta de 1950 José Gall vendeu a ‘Fazenda’ à Companhia Malburg, mudando-se em 1952 para uma casa mais simples na rua Brusque. A Companhia Malburg passou a propriedade para a empresa nacional C. R. Almeida. Como a casa ficou abandonada por muitos anos, acabou sendo completamente depredada, com vândalos levando as aberturas e todos os materiais possíveis de venda. A casa acabou sendo demolida dando lugar ao Fórum Trabalhista de Itajaí.
O tombamento das dezenove, em 1993
Oitenta e três anos depois de plantadas e quatro depois de demolido o casarão, as palmeiras que sobraram ganharam proteção legal. O Decreto nº 5006, de 16 de setembro de 1993, do prefeito Arnaldo Schmitt Júnior, com fundamento no art. 7º da Lei Federal nº 4.771, de 1965 – o Código Florestal -, e na Lei Municipal nº 2.037, de 23 de dezembro de 1982, “que dispõe sobre a proteção do patrimônio histórico, artístico e natural do Município”, declara “tombados e pertencentes ao patrimônio natural do Município de Itajaí, com a conseqüente imunidade ao corte, 19 (dezenove) pés de Palmeiras Reais (Roystonea Régia)“. Os dois considerandos são de doutrina, não de caso: que a flora “é reconhecida, no nosso direito, como bem de interesse comum do povo”, e que é dever do Poder Público conservá-la e preservá-la “em decorrência de sua beleza e tradição”.
Dezenove é exatamente o que restou do renque de 1910: vinte e quatro palmeiras plantadas, cinco perdidas na enchente de 1911. O ato de 1993 é, portanto, a única confirmação documental do acervo para a conta que este verbete faz, e a primeira vez que o Município põe sob imunidade ao corte as árvores desta casa. O art. 2º manda o Executivo mantê-las sob “constante fiscalização”, e o art. 3º fixa as duas únicas formas de extinguir a imunidade: “pela morte natural dos espécimes, ou por ato do Executivo Municipal, em havendo causas que o justifiquem”.
Divergência de logradouro. O decreto situa as dezenove palmeiras “localizadas na rua José Gall“. Este verbete e a relação de renques de palmeiras põem o renque sobrevivente no canteiro central da Rua José Siqueira, e a casa, na confluência das duas. A rua José Gall é via própria e conhecida – a antiga Estrada de Brusque -, e nenhum documento do acervo diz se o decreto nomeia a rua errada, se em 1993 o trecho ainda se chamava assim, ou se as palmeiras tombadas são outras. As duas formas ficam registradas.
FONTE: REBELO, José Ângelo. A casa Gall. IN: DEÓLLA, Lindinalva. Itajaí – imagens & memória. 2 ed. ampl. rev. Itajaí: Amaral editor; Blumenau: Nova Letra, 2016. Páginas 16-7.